Além das mortes, outros profissionais do segmento foram sequetrados
O medo passou a fazer parte da rotina dos trabalhadores de provedores de internet em Salvador após uma sequência de crimes atribuídos ao tráfico de drogas. Em apenas 12 dias do mês de dezembro, três profissionais foram executados no Alto do Cabrito e outros dois sequestrados no bairro de Luís Anselmo. Diante do cenário, a categoria evita realizar instalações e manutenções em áreas como Lobato, Cosme de Farias e o Complexo do Nordeste de Amaralina, enquanto nenhuma medida eficaz é adotada para proteger a classe por parte das empresas e da Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA).
“A maioria só continua na área porque não tem outro emprego. Outros preferem ficar desempregados a arriscar a vida. No final do mês, vou para o interior com minha mulher e meus filhos, porque para mim aqui em Salvador já deu. Não temos apoio do sindicato nem da polícia. Até outro dia, eles (traficantes) apenas nos expulsavam ou ameaçavam. Agora, estão nos matando como se fôssemos porcos. Olha o que fizeram com os três colegas”, declara um técnico de internet, em referência às execuções de Ricardo Antônio da Silva Souza, de 44 anos, Jackson Santos Macedo, 41, e Patrick Vinícius dos Santos Horta, 28. “Isso já vinha acontecendo há muito tempo e a gente não aguenta mais.”
As mortes ocorreram no dia 16 de dezembro. Os trabalhadores instalavam um provedor no bairro de Marechal Rondon quando foram sequestrados por integrantes da facção Bonde do Maluco (BDM), que acreditavam que as vítimas estariam instalando câmeras para o Comando Vermelho (CV). Os técnicos foram levados para a Rua 3, no Alto do Cabrito, onde foram assassinados. Eles não tinham qualquer envolvimento com atividades criminosas e foram executados com fardas, além de estarem com mãos e pés amarrados.
Logo após o triplo homicídio, dois funcionários da operadora Claro — uma das empresas impedidas de atuar no bairro de Luís Anselmo sem o pagamento do chamado “pedágio” exigido por facções — foram sequestrados pelo CV. Eles só foram liberados porque policiais militares realizavam buscas na região.
Esse fenômeno tem levado técnicos a evitarem bairros conflagrados como Lobato, Cosme de Farias, Pau Miúdo, Complexo do Nordeste de Amaralina, Alto do Peru, Luís Anselmo e Saramandaia, entre outros. “São locais que a gente sabe, pelas notícias, que são extremamente violentos, mas as empresas não querem saber. Certa vez, o dono de um provedor insistiu para que eu e um colega voltássemos a uma rua em Sete de Abril, mesmo após o aviso dos traficantes de que a empresa teria que pagar pedágio”, relata outro técnico. Apesar da recusa inicial, os trabalhadores foram obrigados a retornar ao local. “O dono colocou um segurança armado para ir com a gente. Ele só pensava no lucro. E se houvesse troca de tiros? E se um de nós fosse baleado?”, questiona.
A reportagem também ouviu dois trabalhadores contratados por uma empresa que presta serviços à SSP-BA na instalação de câmeras de reconhecimento facial, tecnologia usada para identificar foragidos da Justiça. “A nossa situação é ainda mais tensa. Se nos pegarem, certamente teremos o mesmo fim dos três colegas que já foram mortos. Mas precisamos trabalhar, temos família. Há seis meses, tive uma arma apontada para mim no Lobato, quando atuava em outra empresa. O homem mandou eu descer da escada e disse que ali só operava o ‘gatonet’”, relata um deles.
Após os episódios recentes de violência, os técnicos afirmam que adotaram medidas próprias para aumentar a sensação de segurança. “Não trabalhamos à noite. Começou a escurecer, vamos embora. Não ficamos com o celular na mão para não acharem que estamos filmando”, explica o segundo técnico.

